• Lucas Peres

Temos que (mais uma vez) falar sobre o Racismo

Mesmo no maior esporte do mundo, em que um negro detém o título de Rei do Futebol, a cor da pele ainda é motivo de ofensas.

Neymar discutindo com Álvaro González, que o teria ofendido com falas racistas - Imagem/Reprodução

França, 13 de setembro de 2020: em partida válida pela primeira rodada do campeonato francês, uma partida até então disputada entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha não se encerrou bem.

Ainda no primeiro tempo de partida, o brasileiro Neymar Jr. teria sido chamado de “Macaco filho da P***” pelo zagueiro Álvaro González e ao reclamar para a arbitragem, aos gritos de “Racismo não, racismo aqui não” viu que nada foi feito ou revisado sobre a situação. Já no final da partida, Neymar teria ido para cima do zagueiro adversário, e o atingiu na cabeça, por isso acabou expulso. Ao sair de campo, o camisa 10 teria dito ao quarto árbitro “ele é racista, por isso o peguei”.


Infelizmente, ocorrências de racismo no futebol ainda são recorrentes, seja em ofensas entre jogadores, ou em ataques realizados por torcidas. O caso de Neymar foi apenas mais um entre os vários que ocorrem periodicamente no esporte e apenas são evidenciados ou punidos quando o caso ganha notoriedade. Neste caso, o atacante brasileiro teve de ir para cima do suposto agressor para que uma atitude fosse tomada e ainda deve pagar caro por isso, podendo ser suspenso por mais partidas que Álvaro, que nem expulso foi.

Neymar sendo expulso ao final da partida, após agredir Álvaro - Imagem/Reprodução

Esta não é a primeira vez que um jogador reage a um ato de racismo e é punido. Em 2019, durante o jogo entre Shakhtar Donetsk e Dínamo Kiev, os jogadores Taison e Dentinho, do Shahktar, sofreram ofensas racistas de torcedores adversários e, ao marcar o gol que seria o da vitória, Taison ergue o dedo do meio para os torcedores que o ofendiam, em forma de protesto. Com tal atitude, o atacante acabou expulso da partida, revoltando todo o mundo do futebol. Porém, a Associação Ucraniana de Futebol manteve a punição ao atleta e adicionou mais uma partida de suspensão. Quanto ao Dínamo, foi multado em cerca de 80 mil reais, e um jogo com portões fechados.

Taison apontou o dedo do meio para torcedores do Dínamo Kiev que o ofenderam durante a partida - Imagem/@taisonfreda7

Estes são apenas dois, de vários casos em que o racismo não foi levado tão a sério em relação a resposta. Também não podemos acreditar que o racismo ocorre apenas lá fora, com jogadores e dentro do campo. Em 2014, o ex-juiz e comentarista Márcio Chagas da Silva sofreu, durante o confronte entre Esportivo e Veranópolis, pelo campeonato gaúcho, ataques racistas desde sua entrada em campo. Além de ouvir xingamentos como “macaco”, “seu lugar é na selva” e “volta para o circo”, as agressões saíram do estádio e foram parar no carro do árbitro. Após o jogo, Márcio Chagas encontrou seu veículo particular com amassados, marcas de pisoteadas e havia bananas no capô e no escapamento. O ocorrido foi um dos motivos para sua aposentadoria, mas nem a aposentadoria dos gramados pode proteger Márcio do racismo no esporte. Em entrevista recente para o UOL, Márcio Chagas alega que teria sido demitido da RBS, onde era comentarista de arbitragem desde sua aposentadoria, por ter falado de racismo.


O Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê penas duras para esta prática criminosa, inclusive com a exclusão do clube do torneio. A exclusão do time envolvido, daquele campeonato, pode parecer uma pena injusta e desproporcional, pois, afinal, foi apenas um grupo de indivíduos (não evoluídos) que cometeu o ato. Nada obstante, a partir do momento em que você pune a agremiação em razão do ato criminoso praticado por determinado grupo, possivelmente não haverá reincidência, pois os dirigentes terão cuidados redobrados no tocante a fiscalização de seus torcedores.


Seguindo estas recomendações de penas previstas item XI do art. 170 do CBJD, o Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, o STJD, excluiu o Grêmio da Copa do Brasil de 2014, devido a injúrias sofridas pelo goleiro Aranha, que defendia o Santos, adversário dos gaúchos pelas oitavas de final da competição.


Mesmo reagindo, nem sempre há apoio


O lance de Neymar também levantou outro ponto importante, e expôs mais um motivo desta luta ser difícil. Após o ocorrido na partida, o jogador se posicionou a internet, pedindo justiça e alegando que se revoltou pois notou que o ato do adversário não seria punido pelo ato de racismo e por isso acabou perdendo a cabeça. Após o posicionamento do atleta, muitos comentários foram para atacar a vítima. Devido a uma frase dita aos 18 anos, quando ainda atuava no Santos, Neymar foi criticado pela reação ao ataque que sofreu. Na ocasião, ao ser questionado sobre já ter sido vítima de racismo, ele respondeu: “Nunca. Nem dentro e nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?”. Utilizando uma frase de dez anos atrás, muitos tentaram tirar o foco da revolta do brasileiro, que “não deveria se sentir ofendido” por não se considerar negro.


Comentários com este efeito também ocorreram no caso de Taison. Tiago Mendonça, na época repórter da RedeTV, publicou em seu Twitter a seguinte alegação: “Racismo é crime e deveria provocar sanções pesadas da FIFA. Mas: atleta de elite nenhum pode se descontrolar por grito de torcida, nem para bem, nem pra mal. Se o jogador está em campo ouvindo a torcida, então ele não está realmente ‘em campo’”. Comentários como o de Mendonça servem não apenas para criticar a vítima, mas também acabam amenizando o ocorrido. Dizer que se o jogador estiver focado na partida, ele não irá escutar as ofensas, é como afirmar que se ninguém prestar atenção, então as agressões podem acontecer livremente. Tal afirmação acaba desencorajando outras vítimas a reagir e denunciar tais atos. Após receber críticas, o repórter excluiu a publicação.


é inaceitável que, em pleno século XXI, o ser humano se divida e ataque por causa da cor da pele. Em um esporte que gera uma mistura enorme de pessoas, culturas e sentimentos, atitudes primitivas e criminosas como o racismo não podem ser realizadas por clubes ou torcidas sem que tal ato seja punido da forma mais severa possível.


Na Fórmula 1, o hexacampeão Lewis Hamilton vestiu, antes e depois da corrida do GP da Toscana, uma camisa que tinha a frase “Prendam os policiais que mataram Breonna Taylor” estampada. A atitude fez com que a Federação Internacional de Automobilismo estudasse uma abertura de processo investigativo sobre a conduta do piloto, mas tal ação foi descartada.

"Não vou parar" diz Lewis Hamilton sobre protestos que realizou contra o racismo - Reprodução/ AFP

Tais protestos e posicionamentos tem sido fundamentais na luta contra o racismo em todos os ambientes da sociedade. Mais do que nunca, o ser humano precisa se unir e lutar contra qualquer tipo de preconceito. Somente a organização e união popular pode superar estes problemas que machuca e mata pessoas todos os dias.


Leia também:


5 jogadores que atuaram por dois rivais https://www.onagaveta.com.br/post/5-jogadores-que-atuaram-por-dois-rivais


O que esperar dos times brasileiros na libertadores? https://www.onagaveta.com.br/post/o-que-esperar-dos-times-brasileiros-na-libertadores


A equipe da décima rodada do Campeonato Brasileiro https://www.onagaveta.com.br/post/a-equipe-da-d%C3%A9cima-rodada-do-campeonato-brasileiro