• Wagner Oliveira

As diversas realidades dos clubes da Série D na pandemia


Foto: Divulgação/CBF
Foto: Divulgação/CBF

Enquanto os principais clubes do Brasil, com receitas maiores, já começam a ter um desenho e um planejamento sobre como será o restante do ano de 2020, as equipes da Série D do Campeonato Brasileiro tentam superar as dificuldades para conseguirem formar seus elencos para a disputa da competição e se imaginarem num futuro próspero após um ano em que seus primeiros objetivos foram alterados pela pandemia e a paralisação do futebol.


A Série D, divisão brasileira com mais equipes presentes e que é valorizada por muitas agremiações que batalharam para estarem ali, teve sua data de início definida: 6 de setembro. Os clubes vão se virando para conseguirem sobreviver até a bola rolar, mas cada um passando por uma realidade diferente.


Um dos clubes que sentiu o “baque” forte da paralisação foi o tradicional América-RN, que em 2007, teve a chance de disputar a Série A. Hoje, o clube potiguar se encontra na última divisão do futebol brasileiro e com dificuldades para conseguir renda, que sempre vinha proveniente dos jogos, além da perda de patrocinadores.


“O maior problema da paralisação para o América foi em relação a renda de jogos e passagem de fase na Copa do Brasil e Copa do Nordeste. Com os jogos parados, essas verbas cessaram. Isso nos prejudicou muito em relação ao nosso planejamento. Todos os patrocinadores pediram suspensão de contrato e o orçamento que tínhamos já contando com esta receita, foi totalmente remodelado”, afirmou o presidente do América-RN, Leonardo Bezerra.


Em relação ao elenco, o América teve êxito ao renovar com os jogadores que estavam em fim de contrato, conseguindo manter um grupo de atletas consolidado para o restante da temporada.


Foto: Canindé Pereira/América-RN

“O único que perdemos foi o Tiago Orobó, que teve uma proposta irrecusável de um time da Série A, e não conseguimos segurá-lo. O restante do nosso elenco todo, nós conseguimos renovar com aqueles que venciam o contrato durante a pandemia, inclusive com os salários mais baixos, pois fizemos um acordo com todo nosso elenco, até tudo voltar ao normal.”, destacou.


Outro clube nordestino que está tentando se virar para o restante do ano é o Bahia de Feira, mas que não sofreu tanto como o América de Natal, graças a uma gestão contínua e um planejamento a longo prazo. A equipe não sofreu com perda de jogadores e a mescla de atletas de base com o profissional tem ajudado, pois os contratos são mais longos.


“A maioria dos jogadores do nosso plantel tem contrato conosco até o fim de 2021. Nós fizemos um trabalho dessa forma pois os meninos já jogam conosco há mais de cinco anos, então nós temos contratos longos e a medida que eles vão se encerrando, nós procuramos para renovar.”, afirmou o presidente do Bahia de Feira, Jodilton Souza.


Outro fator que ajudou o clube baiano foi o fato do clube ter conseguido avançar na Copa do Brasil. Segundo Jodilton, a chegada para a segunda fase da competição nacional não estava nos planos, mas ajudou muito na questão financeira.


Foto: Assessoria/Bahia de Feira

“Nós disputamos a Copa do Brasil e colocamos na receita o valor da primeira fase, mas como nós passamos para a segunda fase, esse dinheiro extra está ajudando muito a nível de orçamento a ponto de não precisarmos fazer nenhum aporte financeiro com nossos patrocinadores ou com a cota da TV dos jogos do Campeonato Baiano.”, revelou o dirigente.


A mesma sorte não veio para os clubes do estado de Goiás, como o Goianésia. O “Azulão do Vale”, como é conhecido pelos torcedores e imprensa local, terá que remontar todo o planejamento para disputar a quarta divisão do Campeonato Brasileiro.


“A gente tinha todo um planejamento. O impacto foi muito grande. Em 2019, planejamos um time forte por volta de outubro e novembro, contratamos e trabalhamos o mês de dezembro todo e aí com três meses, o Campeonato Goiano foi paralisado e atrapalhou todo o nosso planejamento para a Série D.”, disse Fabrício Leopoldo, diretor do Goianésia.


O maior prejuízo para a equipe do Goianésia foi em relação ao elenco. O time já não tem jogadores com contrato vigente, apesar de manter conversas com alguns atletas que pensam em trazer de volta para disputar o Brasileirão da Série D.


“Quando teve a paralisação no mês de março, nós acertamos com os atletas e achávamos que a pandemia não fosse demorar tanto e que iríamos retornar com o estadual, mas já estamos indo para praticamente quatro meses. Hoje, não temos mais nenhum jogador vinculado ao clube. Temos conversado com alguns que estavam aqui conosco no Goianão e quanto ao futuro é montar uma equipe agora para a Série D e estamos conversando com alguns atletas, sabendo das dificuldades financeiras, mas agora é hora de todo mundo se juntar.”, destacou Fabrício.


Qual a fórmula de disputa ideal para Série D em 2020?

Foto: Divulgação/CBF

Outro ponto conversado com os dirigentes é a do formato da Série D do Brasileirão. Neste ano, diferente dos anteriores, mais equipes disputarão a competição com grupos maiores e tendo, inclusive, fase preliminar.


Um dos clubes que irá disputar a fase preliminar e precisará vencer caso queira ter uma sequência maior de jogos na quarta divisão é o Brasiliense. Em contato com a reportagem do Na Gaveta, o clube do Distrito Federal preferiu não se posicionar e afirmou que “a posição que a CBF tomar em relação a Série D será a melhor possível para todos os participantes”.


Mas nem todos enxergam as coisas como o Brasiliense. O presidente do América-RN, Leonardo Bezerra, acredita que a fórmula de disputa deveria ser revista após pandemia e que vários clubes cogitam desistir da participação da competição.


“Eu participo de um grupo de presidentes e muitos clubes manifestam a vontade de desistir. Alguns clubes são bancados única e exclusivamente pelas prefeituras e que neste momento de pandemia, estão em sérias dificuldades financeiras, então se o número de clubes diminuir, a CBF terá que modificar a fórmula de disputa.”, afirmou o dirigente do clube potiguar.


O diretor do Goianésia, Fabrício Leopoldo, também acredita que o formato da Série D deveria ser alterado caso haja desistências e que pode ser um caminho para muitas equipes.



Foto: Jornal OPopular

“Eu acredito que será uma Série D complicada em termos financeiros e os clubes estarão bem defasados. Há boatos que a CBF está procurando um jeito juridicamente de não punir os clubes que queiram desistir. Se isso acontecer, acredito que muitos clubes irão desistir da Série D, então ela poderia mudar o formato e acredito que seria louvável”, destacou o dirigente do clube goiano.


Há também os clubes que não veem necessidade da mudança na fórmula de disputa. É o caso da Caldense, da cidade de Poços de Caldas-MG. Em nota, a assessoria do clube divulgou que “o clube é a favor de que o formato atual da Série D seja mantido e que uma boa opção para caso haja a necessidade de realizar os jogos em um curto espaço de tempo seria a realização de partidas aos finais de semana e meio de semana”.


O presidente Jodilton Souza, do Bahia de Feira, não vê outra possibilidade de formato, mesmo com algumas possíveis desistências de alguns clubes.


“Eu acho que deve continuar o modelo. Não há outra possibilidade. A tabela já foi divulgada e não tem como mudar. Se uma equipe desistir, aquele grupo que tem oito passaria a ter uma quantidade menor e depois que se classificassem, iriam para os cruzamentos.”, afirmou o dirigente do clube baiano.

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